terça-feira, 8 de março de 2016

O significado das opiniões...

O interessante sobre desconfiar da mídia é que todas as pessoas que refletem sobre os últimos acontecimentos políticos, independente de referencia partidária, mesmo que isso signifique o olhar maniqueísta sobre os pontos, tem o consenso de que é necessário tomar cuidado com o que é veiculado nas televisões, rádios, internet e jornais. Portanto, no meu ponto de vista, não é a frase de impacto com sugestão de cuidado proeminente que necessariamente vai fazer fulano ou ciclano tomar cuidado com o que recebe de informação.

Acho que está para além disso. Pois as nossas convicções que irão determinar o que significa noticia certa ou errada e este é o ponto das divisões. Quando o cidadão médio refere de forma generalizada o que significa alienação subentende-se que ele não faça parte deste meio. Mas como avaliar se somos ou não alienados de alguma forma? Nisto, não estou levando em consideração a quase metade de pessoas do país que assistem a rede globo, dos milhões que compartilham um meme nas redes sociais e o referem como verdade absoluta, das situações nas quais a informação ainda é muito rasa. Mas há também as grandes teorias acadêmicas que sofreram influencias e estas possuem opinião: talvez ter uma opinião seja o começo da autonomia, ou a dificuldade de desconstrução de outras idéias.

O problema ainda pode ser o velho e conhecido papo da falta de acesso à educação, talvez a necessidade de acesso aos mais variados meios de comunicação ainda sejam escassos – e o nosso desconhecimento acaba então sendo generalizado. Para tanto, as formulas e soluções também são variadas – Mas o jogo de poder econômico e político confere que sejamos as cartas que estão dentro ou fora do baralho, daí a nossa opinião muitas vezes não conta.

Desconfiar da mídia deveria ser um principio meio óbvio, pois as varias obrigações do cotidiano e a forma como os interesses são atribuídos para determinados grupos não deixam uma somatória positiva de um bem comum estável. Nosso meio urbano é socialmente, geograficamente, economicamente dividido e sempre haverá alguém que vai desejar que a sua vontade prevaleça. Daí o convencimento como chave de partida para colocar as massas dos lados que são úteis para o capital financeiro, para o estabelecimento das vontades de alguns poucos. Afinal os que tem dinheiro não se contentam em possuir uma vida boa, eles precisam ter a segurança de que quem está em baixo continue por baixo – outra obviedade.

E aquelas camadas da qual faço parte, como negras(os), pobres e trabalhadoras(os) não tem o direito nem à opinião: para estes grupos pauperizados o pão e o circo continua sendo a velha estratégia...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O direito de ser a cidade

O direito à cidade é uma discussão muito difundida na capital paulista a partir de junho de 2013 com as manifestações colocadas inicialmente pelo movimento Passe Livre, que posteriormente tomou outras dimensões desde a pauta inicial por diminuição da tarifa do transporte público. Estas outras dimensões nunca ficaram muito nítidas na cidade, somente uma coisa ficou unânime: um descontentamento generalizado que colocou as pessoas nas ruas em ações e protestos em todas as partes, desde os centro aos mais extremos da periferia.

O direito internacional dos direitos humanos coloca leis fundamentais de acesso e direito básico à saúde, à proteção de mulheres e crianças, pessoas submetidas a processos penais, questões de raça e sexualidade, religiosas e variadas discriminações que tirariam o minimo de qualquer ser humano ter dignidade e suas relações de convívio com o outro e com a sua própria essência. A declaração universal dos direitos humanos foi criada em 1948 na Assembleia das Organizações Unidas ONU, reconhecendo direitos e liberdades fundamentais de cada ser humano em sua totalidade – criada no período pós guerra como resposta das situações de barbárie que o globo foi submetido. 

O direito à cidade nada mais é que um direito que fundamentaliza os outros direitos básicos, sua função tem relação direta com o acesso as cidades como espaços de moradia, mobilidade, lazer e acesso aos equipamentos públicos - em todas essas esferas encontramos uma dificuldade de generalizar esse próprio acesso. O crescimento das grandes cidades, no nosso caso a cidade de São Paulo, se edificou nos espaços urbanos dominados desde o fim do século 19 pelos barões do café que fincaram suas residências nas altas regiões, hoje o maior centro financeiro do pais, espaços reservados para os detentores do poder. Os imigrantes que trabalharam para esta elite serviu em primeiro lugar para definir quem poderia ser trabalhador neste período e quem poderia ser explorado: os imigrantes como mão de obra barata, as primeiras famílias, sentiram esse nível de exploração; e os descendentes de negros que foram escravizados como uma demanda popular jogada à própria sorte sem terras e direitos que definiram o perfil que a cidade teria desde então. Uma política governamental racista e segregadora. 


O crescimento rápido e desordenado trouxeram as crises de habitação e mobilidade, pois as construções das grandes empresas tinham como concentração as regiões já habitadas pela elite, seja ela dos barões ou dos descendentes de imigrantes europeus. Essa concentração fez a cidade se expandir de forma desigual. Sendo a cidade considerada desde o começo do século XX estratégica geograficamente, com intenso fluxo migratório e com forte demanda da economia do café teve um crescimento vertiginoso: em 1900 era de 240 mil habitantes, em 1950 passou para 2,2 milhões; hoje está em 11,3 milhões. Esse contexto histórico e demográfico confere uma discrepância geográfica e social para a cidade - Os ricos e a classe média branca possui acesso à cidade e os pobres e negros, em sua maioria, com serias dificuldades de acesso aos serviços do mesmo território




Em tempo, o direito à cidade foi condicionada para aqueles que possuem fácil acesso aos melhores meios de transporte, serviços gerais e de cultura de massa, educação, lazer, moradia - isso são condicionantes deste acesso . O pobre (sua ampla maioria negra) tem o acesso aos serviços, porém de forma muito subjetiva, estes mesmos acessos são condicionados a um déficit em sua qualidade e propriedade: isso significa que não falta saúde, educação ou transporte, mas os mesmos são de qualidade ruim ou duvidosa que dificulta outras séries de acessos pois a sistemática, a dinâmica econômica e geográfica vai minando sua qualidade, como serviços de cultura gratuitos, informação e aprimoramento pessoal e coletivo o que prioritariamente coloca o mais humilde em uma situação de desvantagem em qualquer atividade que envolva os acessos ao meio urbano. 

O direito à cidade refere um dos mais perversos fatores de exclusão social de consequência histórica: o direito à moradia digna. Muitos movimentos sociais referem essa luta como a grande luta de acesso à cidade – Porém o poder público, durante décadas relegou esse direito a um direito desapropriado de qualidade, pois os conjuntos habitacionais e toda a demanda por esta moradia ficou fora do contexto urbano, distante do fluxo geral - um bom exemplo é a Cidade Tiradentes ou os incêndios criminosos que ocorreram com frequência em lugares onde a especulação imobiliária referiu como lugares-chave para o lucro. 

Sendo então o direito à cidade o direito de se apropriar dos espaços do território, ela é mentirosa a partir do momento em que negros, imigrantes, mulheres, e demais grupos fragilizados são excluídos desse processo que deveria ser colocado como natural para todos. A cidade, crescendo desordenadamente, fez e faz dos mais humildes o grande alvo das dificuldades gerais de chegada ao emprego, faltas de oportunidades de lazer e piora na  qualidade de vida – Tudo isso adoece, tudo isso cria outras dificuldades que geram maior problema no orçamento para o próprio poder público, que durante décadas negou as pessoas o mesmo direitos que outras por causa de sua cor, gênero e origem. 


Os direitos humanos, enquanto pasta governamental, tem como meta difundir e educar a população de que ela tem direitos fundamentais que foram desrespeitados pela história e que há tempo de recuperar e resgatar o que é de todos: a cidade como espaço orgânico e coletivo para que todos se entendam como pertencentes do espaço, independentemente de cultura, situação econômica e origem: a cidade precisa deixar de ser uma selva de pedra e torna-se um campo de todas as espécies. 




Fontes:

Imagemhttp://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-principal-conclusao-do-datafolha-por-paulo-nogueira/o-favela-facebook/



O que é o direito à cidade: http://rioonwatch.org.br/?p=7921

Direito internacional humanitário e o direito internacional dos direitos humanos : https://www.icrc.org/por/resources/documents/misc/5ybllf.htm








Moradia é um direito humano:

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

As seletividades do cotidiano


Todas as intervenções da mídia em relação ao atentado ocorrido na França (assim como a ocorrida no início do ano ou aquelas que aconteceram ou ameaçam países desenvolvidos, em especial os EUA), evidenciam uma preferencia que tem como viés a justificação econômica.
Os jornalistas colocam esta atenção com a normalidade de uma cobertura necessária, tendo em vista Paris se encontrar no centro do mundo no sentido do turismo, da movimentação de pessoas para as mais diversas atividades econômicas (assim como nova Iorque, Madrid, Tóquio, etc), mas em maior medida por ser uma região de intensa rota turística - Mesmo este consumo não sendo tão intenso, pois o turismo da França não impacta tão positivamente na arrecadação como nos Estados Unidos onde as práticas de turismo estão diretamente vinculadas ao consumo (roupas, parques, comida), no caso de Paris são basicamente os museus, Torre Eiffel e alimentação, onde os gastos não se dão na mesma proporcionalidade.

Por que estou falando de consumo? Porque se esta capital não tivesse essa comercialização, não tivesse no imaginário dos casais românticos como parada obrigatória, não tivesse na história mundial como país modelo político de liberdade não teríamos a mesma visão e proporção das tragédias que aconteceram. Do mesmo modo que o fato de ela ser um pais branco e europeu define por si só sua significância e empatia mundial - E o consumo, dentro deste contexto, relaciona nestas narrativas globalizantes aquilo que temos de pior e nem percebemos: a seletividade que agrega, porque foi induzido desde que somos crianças que estes lugares são importantes, são lugares fantásticos, são lugares que devemos um dia explorar, ou seja, gastar e ser feliz.

Isto não minimiza o caráter trágico de pessoas que perderam amigos e familiares, não minimiza a nossa humanidade de entender que inocentes morreram em vão - Mas o que fica é a atenção que a mídia fornece a alguns lugares tidos como referencias, injetados em nossas cabeças por Hollywood, e aqueles que não se enquadram neste perfil e que são esquecidos e normalizados - porque fazemos uma tragédia anda maior: Consideramos normal grupos já oprimidos continuarem a serem oprimidos.

Então temos a contradição: Aceitamos que grupos e nações oprimidas continuem oprimidos e explorados (Africa, Oriente Médio, América Latina...) e nações historicamente e economicamente opressores não aceitamos que possam passar por coisas semelhantes, afinal são civilizados, são exemplos de organização e economia. Na verdade ninguém precisaria passar por dificuldades, mas temos um padrão de vida, de sistema econômico e modo de pensar que nos leva a tragédias cotidianas.

Vivemos um nível de perversidade tão grande que não encaramos o fato de que, se estas nações desenvolvidas vivem com medo de atentados é porque elas mesmas montaram este escopo durante séculos de escravidão, saques, mortes e ainda as alimenta nos dias de hoje com guerras, trafico de armas, exploração e desrespeitos à Fauna e Flora e uso e desuso de países pobres conforme seus interesses...econômicos.

Não estou justificando mortes e ataques públicos com armas e bombas, estou classificando a causa e efeito. A mídia, uma das grandes culpadas de todos estes processos, ainda vivem para moldar a nossa forma de entender e classificar o mundo, os grupos e as pessoas - A mesma mídia, que também é imprescindível para o alcance da informação é a mesma que tem como resposta o dinheiro como justificativa de dar mais atenção a uns grupos em relação a outros - A mídia refere suas verdades e educa os povos conforme as verdades individualistas, de mercado e conformista. Como ultima reflexão poderíamos pensar: Se os franceses, infelizmente, vivem esta momentânea e difícil onda de medo, imagina famílias no Oriente Médio e África que vivem isto por décadas com a narrativa do progresso e desenvolvimentismo. Estas mortes (humanas e animais) representam aquilo que somos. E somos horríveis.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grajaú e todo e restante

Muitos escrevem a sua história e estas não são contadas nas páginas dos grandes jornais e não o são primeiro porque não existe representatividade nos espaços de poder para pobres e negros e segundo porque não interessa para o homem branco bem sucedido saber o que se passa na vida de uma pessoa que não atribui a mesma semelhança de valores. A historia foi construída desta maneira e ela é efetivada pela necessidade de alguns povos, únicos povos, colocarem sua visão de mundo transformando a sua cultura em uma única cultura desrespeitando as multiculturalidades.

Sempre caminhei pelo lado mais fraco de toda esta corda e viver esta vida não é motivo de orgulho, afinal queria e deveria ter tido uma vida mais digna e repleta de oportunidades. Mas não foi bem assim e ainda me surpreendo com a capacidade de superação que o povo da periferia, o povo negro construiu – ora pela própria necessidade que lhe foi imposta, ora porque ficou conveniente para o poder público saber que existe esta resistência pela necessidade.

Quando nasci, a percepção de uma família estruturada sempre foi ameaçada, assim como a perspectiva de não ter riscos de moradia, de alimentação, de oportunidades – Minha mãe sendo uma empregada doméstica e meu pai perdido no mundo que a cocaína e o Crack lhe ofertaram, que o levou para a morte. Fui abusado sexualmente aos seis anos, por um parente de meu pai e foi esta mesma família de meu pai que me ensinou o que eu não deveria ser como pessoa – senti o desprezo, senti a falta de atenção, carinho e as coisas minuciosas que o adulto acha que engana a criança e que se transformou em uma revolta, que foi associada quando adulto, um lugar que não quero mais pisar.

No começo de minha adolescência conheci o Grajaú e com ele novas necessidades, novas faltas de estrutura que foram minando em muita culpa, em muita necessidade de mostrar o quanto podia ser homem e ajudar a minha mãe, mostrar que não seria parte de um problema como fizeram questão de me ensinar no caso do meu pai. Conseguimos o nosso espaço, um terreno cedido pelo meu avô e com ele a esperança de uma nova vida, da construção da segunda casa (agora a casa que seria nossa, não uma casa construída em um terreno que não nos pertencia...) – Uma viela no Grajaú, Jardim Gaivotas, e a felicidade de uma possível paz, de minha mãe poder reconstruir a sua vida e ser feliz. Uma de minhas metas.

A história como reflexo

Descobrir-se negro foi o primeiro passo para entender aquilo que fui e sou e na verdade estas verdades só se tornaram efetivas quando o Rap entrou na minha vida e pude entender que ser negro, ter esta identidade e saber a minha origem seria o passo inicial para algum protagonismo. Na minha adolescência conheci e fiz muitas coisas que qualquer adolescente faz, mas sempre na defensiva, como se estivesse com medo de ser afrontado, de ser desprezado e isso fez de mim uma pessoa reticente, apesar de muito ativo para experiências afetivas e descobrir novas coisas.

O grande passo se deu quando conheci pessoas que passaram por situações semelhantes ou piores que a minha, conhecer o mundo LGBTT foi um grande passo para começar a falar o que eu passei e o que eu sofria e também para entender que também sou opressor, pois ser homem e heterossexual nesta sociedade me dava e dá diversas vantagens que também se configuram no sofrimento do outro.

E então fui percebendo que os jornais, que a mídia, que os espaços de poder nunca fizeram muita questão de abordar veementemente todas estas mazelas sofridas no cotidiano pelo preto e pobre, pelo homossexual, pela mulher: quando não todos em uma mesma pessoa. Descobri que os espaços de poder são efetivados pela necessidade de se reafirmar cotidianamente como belo, como ideal, como o mais correto - seja na musica, na política, na história e religião. Então percebemos que ser preto e periférico não te deixa somente na periferia geográfica do urbano, mas na periferia do padrão de beleza, na periferia da educação, na periferia das oportunidades.

Ao adentrar um pouco no movimento negro percebi também o quão é efetivo esse mesmo sistema que quer mostrar que não existem problemas e que ao mesmo tempo é o grande responsável por tudo aquilo que foi construído, pelo sistema econômico que se alimentou da escravidão nos séculos passados e na atualidade, que define quem deve ou não ocupar as cadeiras das universidades, empresas e política e que ainda te culpa por não ter sido bom o suficiente em ocupar estes espaços. O movimento negro me fez perceber, assim como o movimento LGBTT, que existem diferenças nítidas que fazem de nós marionetes e o quanto dói saber como somos usados, o quanto é efetivo a maneira status quo de alinhar a fala de culpa, fazendo acreditar que não nos esforçamos suficientemente para ter e ser aquilo que o abastado o fez - logicamente em sua fala pelo esforço.

Crença e descrença

Empoderado e cada vez mais confuso, tive, assim como muitos, um processo doloso e complicado. Fiz parte de uma parte mínima da periferia que criou identificação com o lugar sem no entanto fazer parte dele – estudei muito e não tinha o mesmo ritmo e conversas que os meus demais vizinhos e amigos, ao mesmo tempo, quando alcancei o grande sonho da minha vida de entrar na USP criei um nojo inacreditável de tudo aquilo que também não tinha nada a ver com a minha vida dentro da universidade. Sempre me senti sozinho. Os meus pais não tiveram a oportunidade de estudar. Meu pai parou na 8° série do ensino fundamental e minha mãe, também pela necessidade, no 2° ano do ensino médio. Não tive referencias, a não ser o caráter – aquele que sofre a vida inteira e se mantém honesto e integro.

Estes sofrimentos e culpas me encaminharam para uma responsabilidade que assumi muito cedo, seja pela culpa, seja pela necessidade de mostrar que poderia ser algo. Meus vizinhos, muitos deles, tiveram uma vida muito complicada, 10 vezes mais que a minha e então não poderia culpá-los por não chegar aonde cheguei, o ser humano é muito complexo, a periferia é muito complexa e seria um erro este julgamento primário em relação aos caminhos que cada um tomou ou foi escolhido. E outra, os exemplos são mais positivos do que negativos, sem generalizações de nosso espaço.

A fala meritocrática é um risco no meu caminho, porque muitos me usam como referencial para afirmar a velha fala do “quem quer consegue” quando na verdade esse dito representa um vazio sem tamanho na minha concepção, representa a necessidade de justificar o capitalismo como um sistema útil e seguro, quando na verdade temos as grandes mazelas e desgraças da humanidade referenciadas justamente neste sistema. Os negros são excluídos, foram usados e o são, assim como muitos povos mais vulneráveis, grupos sociais tidos como minorias.

As pessoas associam a França como um país referencial no que tange a liberdade e direitos humanos, mas ninguém fala das ações dos partidos de extrema direita e o pensamento xenofóbico daquela população com negros e Árabes; Associam os Estados Unidos como um país próspero, mas não levam em consideração os financiamentos em guerras, os massacres contra os povos pobres e oprimidos de varias nacionalidades em todo o mundo; Associam o Brasil como um país de multirracial, cordial e feliz, mas não falam da juventude negra que é morta em um numero inimaginável, onde existem desigualdades ainda gigantescas. Todas estas fábulas sobre os povos são contos colocadas pelos que estão no poder, por aqueles que querem deixar evidente que o seu meio de expressão e suposta democracia serve para todos, quando na verdade ela está colocada por muito poucos a serviço de pouquíssimas pessoas falando em nome de outras das quais não possuem nenhum tipo de voz nos espaços de poder.

À tona.

Por isso tudo que reflito que não há fala efetiva de igualdade que não seja feita por aquele que entende a dor, que não há justificativas de fraternidade se quem está na base não possui voz, pois por mais do que todas as injustiças sociais sejam resolvidas por quem tem empatia pelas causas elas não são tão efetivas se não discutidas por aqueles que de fato viveram as tragédias do cotidiano, que entende o que significa ser pobre, ser excluído de fato. O Brasil cresceu muito nos últimos 12 anos e esse é um momento propício de se colocar na mesa o quanto esse crescimento se refletiu em protagonismo, em escolhas e oportunidades na fala de quem as recebeu.

Sou negro, periférico que morou em uma viela no Grajaú, filho de empregada doméstica (que mora no mesmo lugar) e estudante da USP - ainda estou aprendendo o que é estudar e me adaptar às rotinas impostas por um ensino ainda muito conservador e liberal. Ainda estou entendendo e me encontrando no movimento negro a qual tenho aprendido muito e coloca no entendimento do que é importante para a nossa população. E eu digo “nossa’ porque precisamos sim ter identidade, precisamos sim formar um gueto empoderado intelectualmente e economicamente.

Por isso não admito e não aceito que nenhum abastado se coloque na minha frente, achando que pode usar meu jeito e corpo como forma de escarnio e ofensa, que diga o que é ou não bom para mim – costumo ser muito diplomático e tranqüilo, mais ouço do que falo, mas não permito que pessoas que vieram de um meio cheio de oportunidades diga o que significa sobre aquilo que somos, minha experiência empírica vale mais do que muitos livros (apesar de saber da importância fundamental destes), e se estou fazendo um curso de Gestão de Políticas Públicas na maior universidade da América Latina é porque acredito que a administração pública, que a gestão das políticas públicas podem ser transformadoras da realidade quando olhada a partir da ponta - pois sou a ponta.

E por isso tudo que quero ir ainda muito longe. Tenho 30 anos, as vésperas de casar e cheio de sonhos ao lado de minha preta, com meus projetos pessoais, de transformar a minha mãe na rainha que já o é, de transformar a sociedade a partir daquilo que tenho e que vou adquirir. 

Agradeço pelo que sou, pois somos o que somos.