quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grajaú e todo e restante

Muitos escrevem a sua história e estas não são contadas nas páginas dos grandes jornais e não o são primeiro porque não existe representatividade nos espaços de poder para pobres e negros e segundo porque não interessa para o homem branco bem sucedido saber o que se passa na vida de uma pessoa que não atribui a mesma semelhança de valores. A historia foi construída desta maneira e ela é efetivada pela necessidade de alguns povos, únicos povos, colocarem sua visão de mundo transformando a sua cultura em uma única cultura desrespeitando as multiculturalidades.

Sempre caminhei pelo lado mais fraco de toda esta corda e viver esta vida não é motivo de orgulho, afinal queria e deveria ter tido uma vida mais digna e repleta de oportunidades. Mas não foi bem assim e ainda me surpreendo com a capacidade de superação que o povo da periferia, o povo negro construiu – ora pela própria necessidade que lhe foi imposta, ora porque ficou conveniente para o poder público saber que existe esta resistência pela necessidade.

Quando nasci, a percepção de uma família estruturada sempre foi ameaçada, assim como a perspectiva de não ter riscos de moradia, de alimentação, de oportunidades – Minha mãe sendo uma empregada doméstica e meu pai perdido no mundo que a cocaína e o Crack lhe ofertaram, que o levou para a morte. Fui abusado sexualmente aos seis anos, por um parente de meu pai e foi esta mesma família de meu pai que me ensinou o que eu não deveria ser como pessoa – senti o desprezo, senti a falta de atenção, carinho e as coisas minuciosas que o adulto acha que engana a criança e que se transformou em uma revolta, que foi associada quando adulto, um lugar que não quero mais pisar.

No começo de minha adolescência conheci o Grajaú e com ele novas necessidades, novas faltas de estrutura que foram minando em muita culpa, em muita necessidade de mostrar o quanto podia ser homem e ajudar a minha mãe, mostrar que não seria parte de um problema como fizeram questão de me ensinar no caso do meu pai. Conseguimos o nosso espaço, um terreno cedido pelo meu avô e com ele a esperança de uma nova vida, da construção da segunda casa (agora a casa que seria nossa, não uma casa construída em um terreno que não nos pertencia...) – Uma viela no Grajaú, Jardim Gaivotas, e a felicidade de uma possível paz, de minha mãe poder reconstruir a sua vida e ser feliz. Uma de minhas metas.

A história como reflexo

Descobrir-se negro foi o primeiro passo para entender aquilo que fui e sou e na verdade estas verdades só se tornaram efetivas quando o Rap entrou na minha vida e pude entender que ser negro, ter esta identidade e saber a minha origem seria o passo inicial para algum protagonismo. Na minha adolescência conheci e fiz muitas coisas que qualquer adolescente faz, mas sempre na defensiva, como se estivesse com medo de ser afrontado, de ser desprezado e isso fez de mim uma pessoa reticente, apesar de muito ativo para experiências afetivas e descobrir novas coisas.

O grande passo se deu quando conheci pessoas que passaram por situações semelhantes ou piores que a minha, conhecer o mundo LGBTT foi um grande passo para começar a falar o que eu passei e o que eu sofria e também para entender que também sou opressor, pois ser homem e heterossexual nesta sociedade me dava e dá diversas vantagens que também se configuram no sofrimento do outro.

E então fui percebendo que os jornais, que a mídia, que os espaços de poder nunca fizeram muita questão de abordar veementemente todas estas mazelas sofridas no cotidiano pelo preto e pobre, pelo homossexual, pela mulher: quando não todos em uma mesma pessoa. Descobri que os espaços de poder são efetivados pela necessidade de se reafirmar cotidianamente como belo, como ideal, como o mais correto - seja na musica, na política, na história e religião. Então percebemos que ser preto e periférico não te deixa somente na periferia geográfica do urbano, mas na periferia do padrão de beleza, na periferia da educação, na periferia das oportunidades.

Ao adentrar um pouco no movimento negro percebi também o quão é efetivo esse mesmo sistema que quer mostrar que não existem problemas e que ao mesmo tempo é o grande responsável por tudo aquilo que foi construído, pelo sistema econômico que se alimentou da escravidão nos séculos passados e na atualidade, que define quem deve ou não ocupar as cadeiras das universidades, empresas e política e que ainda te culpa por não ter sido bom o suficiente em ocupar estes espaços. O movimento negro me fez perceber, assim como o movimento LGBTT, que existem diferenças nítidas que fazem de nós marionetes e o quanto dói saber como somos usados, o quanto é efetivo a maneira status quo de alinhar a fala de culpa, fazendo acreditar que não nos esforçamos suficientemente para ter e ser aquilo que o abastado o fez - logicamente em sua fala pelo esforço.

Crença e descrença

Empoderado e cada vez mais confuso, tive, assim como muitos, um processo doloso e complicado. Fiz parte de uma parte mínima da periferia que criou identificação com o lugar sem no entanto fazer parte dele – estudei muito e não tinha o mesmo ritmo e conversas que os meus demais vizinhos e amigos, ao mesmo tempo, quando alcancei o grande sonho da minha vida de entrar na USP criei um nojo inacreditável de tudo aquilo que também não tinha nada a ver com a minha vida dentro da universidade. Sempre me senti sozinho. Os meus pais não tiveram a oportunidade de estudar. Meu pai parou na 8° série do ensino fundamental e minha mãe, também pela necessidade, no 2° ano do ensino médio. Não tive referencias, a não ser o caráter – aquele que sofre a vida inteira e se mantém honesto e integro.

Estes sofrimentos e culpas me encaminharam para uma responsabilidade que assumi muito cedo, seja pela culpa, seja pela necessidade de mostrar que poderia ser algo. Meus vizinhos, muitos deles, tiveram uma vida muito complicada, 10 vezes mais que a minha e então não poderia culpá-los por não chegar aonde cheguei, o ser humano é muito complexo, a periferia é muito complexa e seria um erro este julgamento primário em relação aos caminhos que cada um tomou ou foi escolhido. E outra, os exemplos são mais positivos do que negativos, sem generalizações de nosso espaço.

A fala meritocrática é um risco no meu caminho, porque muitos me usam como referencial para afirmar a velha fala do “quem quer consegue” quando na verdade esse dito representa um vazio sem tamanho na minha concepção, representa a necessidade de justificar o capitalismo como um sistema útil e seguro, quando na verdade temos as grandes mazelas e desgraças da humanidade referenciadas justamente neste sistema. Os negros são excluídos, foram usados e o são, assim como muitos povos mais vulneráveis, grupos sociais tidos como minorias.

As pessoas associam a França como um país referencial no que tange a liberdade e direitos humanos, mas ninguém fala das ações dos partidos de extrema direita e o pensamento xenofóbico daquela população com negros e Árabes; Associam os Estados Unidos como um país próspero, mas não levam em consideração os financiamentos em guerras, os massacres contra os povos pobres e oprimidos de varias nacionalidades em todo o mundo; Associam o Brasil como um país de multirracial, cordial e feliz, mas não falam da juventude negra que é morta em um numero inimaginável, onde existem desigualdades ainda gigantescas. Todas estas fábulas sobre os povos são contos colocadas pelos que estão no poder, por aqueles que querem deixar evidente que o seu meio de expressão e suposta democracia serve para todos, quando na verdade ela está colocada por muito poucos a serviço de pouquíssimas pessoas falando em nome de outras das quais não possuem nenhum tipo de voz nos espaços de poder.

À tona.

Por isso tudo que reflito que não há fala efetiva de igualdade que não seja feita por aquele que entende a dor, que não há justificativas de fraternidade se quem está na base não possui voz, pois por mais do que todas as injustiças sociais sejam resolvidas por quem tem empatia pelas causas elas não são tão efetivas se não discutidas por aqueles que de fato viveram as tragédias do cotidiano, que entende o que significa ser pobre, ser excluído de fato. O Brasil cresceu muito nos últimos 12 anos e esse é um momento propício de se colocar na mesa o quanto esse crescimento se refletiu em protagonismo, em escolhas e oportunidades na fala de quem as recebeu.

Sou negro, periférico que morou em uma viela no Grajaú, filho de empregada doméstica (que mora no mesmo lugar) e estudante da USP - ainda estou aprendendo o que é estudar e me adaptar às rotinas impostas por um ensino ainda muito conservador e liberal. Ainda estou entendendo e me encontrando no movimento negro a qual tenho aprendido muito e coloca no entendimento do que é importante para a nossa população. E eu digo “nossa’ porque precisamos sim ter identidade, precisamos sim formar um gueto empoderado intelectualmente e economicamente.

Por isso não admito e não aceito que nenhum abastado se coloque na minha frente, achando que pode usar meu jeito e corpo como forma de escarnio e ofensa, que diga o que é ou não bom para mim – costumo ser muito diplomático e tranqüilo, mais ouço do que falo, mas não permito que pessoas que vieram de um meio cheio de oportunidades diga o que significa sobre aquilo que somos, minha experiência empírica vale mais do que muitos livros (apesar de saber da importância fundamental destes), e se estou fazendo um curso de Gestão de Políticas Públicas na maior universidade da América Latina é porque acredito que a administração pública, que a gestão das políticas públicas podem ser transformadoras da realidade quando olhada a partir da ponta - pois sou a ponta.

E por isso tudo que quero ir ainda muito longe. Tenho 30 anos, as vésperas de casar e cheio de sonhos ao lado de minha preta, com meus projetos pessoais, de transformar a minha mãe na rainha que já o é, de transformar a sociedade a partir daquilo que tenho e que vou adquirir. 

Agradeço pelo que sou, pois somos o que somos. 

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