Muitos escrevem a sua história e estas não são contadas nas
páginas dos grandes jornais e não o são primeiro porque não existe
representatividade nos espaços de poder para pobres e negros e segundo porque
não interessa para o homem branco bem sucedido saber o que se passa na vida de
uma pessoa que não atribui a mesma semelhança de valores. A historia foi
construída desta maneira e ela é efetivada pela necessidade de alguns povos,
únicos povos, colocarem sua visão de mundo transformando a sua cultura em uma
única cultura desrespeitando as multiculturalidades.
Sempre caminhei pelo lado mais fraco de toda esta corda e
viver esta vida não é motivo de orgulho, afinal queria e deveria ter tido uma
vida mais digna e repleta de oportunidades. Mas não foi bem assim e ainda me
surpreendo com a capacidade de superação que o povo da periferia, o povo negro
construiu – ora pela própria necessidade que lhe foi imposta, ora porque ficou
conveniente para o poder público saber que existe esta resistência pela
necessidade.
Quando nasci, a percepção de uma família estruturada sempre
foi ameaçada, assim como a perspectiva de não ter riscos de moradia, de
alimentação, de oportunidades – Minha mãe sendo uma empregada doméstica e meu
pai perdido no mundo que a cocaína e o Crack lhe ofertaram, que o levou para a morte.
Fui abusado sexualmente aos seis anos, por um parente de meu pai e foi esta mesma
família de meu pai que me ensinou o que eu não deveria ser como pessoa – senti
o desprezo, senti a falta de atenção, carinho e as coisas minuciosas que o
adulto acha que engana a criança e que se transformou em uma revolta, que foi
associada quando adulto, um lugar que não quero mais pisar.
No começo de minha adolescência conheci o Grajaú e com ele
novas necessidades, novas faltas de estrutura que foram minando em muita culpa,
em muita necessidade de mostrar o quanto podia ser homem e ajudar a minha mãe,
mostrar que não seria parte de um problema como fizeram questão de me ensinar
no caso do meu pai. Conseguimos o nosso espaço, um terreno cedido pelo meu avô
e com ele a esperança de uma nova vida, da construção da segunda casa (agora a
casa que seria nossa, não uma casa construída em um terreno que não nos
pertencia...) – Uma viela no Grajaú, Jardim Gaivotas, e a felicidade de uma
possível paz, de minha mãe poder reconstruir a sua vida e ser feliz. Uma de
minhas metas.
A história como reflexo
Descobrir-se negro foi o primeiro passo para entender aquilo
que fui e sou e na verdade estas verdades só se tornaram efetivas quando o Rap
entrou na minha vida e pude entender que ser negro, ter esta identidade e saber
a minha origem seria o passo inicial para algum protagonismo. Na minha
adolescência conheci e fiz muitas coisas que qualquer adolescente faz, mas
sempre na defensiva, como se estivesse com medo de ser afrontado, de ser
desprezado e isso fez de mim uma pessoa reticente, apesar de muito ativo para
experiências afetivas e descobrir novas coisas.
O grande passo se deu quando conheci pessoas que passaram por situações
semelhantes ou piores que a minha, conhecer o mundo LGBTT foi um grande passo
para começar a falar o que eu passei e o que eu sofria e também para entender
que também sou opressor, pois ser homem e heterossexual nesta sociedade me dava e dá diversas vantagens que também se configuram no sofrimento do outro.
E então fui percebendo que os jornais, que a mídia, que os
espaços de poder nunca fizeram muita questão de abordar veementemente todas
estas mazelas sofridas no cotidiano pelo preto e pobre, pelo homossexual, pela mulher:
quando não todos em uma mesma pessoa. Descobri que os espaços de poder são
efetivados pela necessidade de se reafirmar cotidianamente como belo, como ideal,
como o mais correto - seja na musica, na política, na história e religião. Então
percebemos que ser preto e periférico não te deixa somente na periferia
geográfica do urbano, mas na periferia do padrão de beleza, na periferia da
educação, na periferia das oportunidades.
Ao adentrar um pouco no movimento negro percebi também o quão
é efetivo esse mesmo sistema que quer mostrar que não existem problemas e que
ao mesmo tempo é o grande responsável por tudo aquilo que foi construído, pelo
sistema econômico que se alimentou da escravidão nos séculos passados e na
atualidade, que define quem deve ou não ocupar as cadeiras das universidades,
empresas e política e que ainda te culpa por não ter sido bom o suficiente em
ocupar estes espaços. O movimento negro me fez perceber, assim como o movimento
LGBTT, que existem diferenças nítidas que fazem de nós marionetes e o quanto
dói saber como somos usados, o quanto é efetivo a maneira status quo de alinhar a fala de culpa, fazendo acreditar que não
nos esforçamos suficientemente para ter e ser aquilo que o abastado o fez -
logicamente em sua fala pelo esforço.
Crença e descrença
Empoderado e cada vez mais confuso, tive, assim como muitos,
um processo doloso e complicado. Fiz parte de uma parte mínima da periferia que
criou identificação com o lugar sem no entanto fazer parte dele – estudei muito
e não tinha o mesmo ritmo e conversas que os meus demais vizinhos e amigos, ao
mesmo tempo, quando alcancei o grande sonho da minha vida de entrar na USP
criei um nojo inacreditável de tudo aquilo que também não tinha nada a ver com
a minha vida dentro da universidade. Sempre me senti sozinho. Os meus pais não tiveram a oportunidade de
estudar. Meu pai parou na 8° série do ensino fundamental e minha mãe, também
pela necessidade, no 2° ano do ensino médio. Não tive referencias, a não ser o
caráter – aquele que sofre a vida inteira e se mantém honesto e integro.
Estes sofrimentos e culpas me encaminharam para uma
responsabilidade que assumi muito cedo, seja pela culpa, seja pela necessidade
de mostrar que poderia ser algo. Meus vizinhos, muitos deles, tiveram uma vida
muito complicada, 10 vezes mais que a minha e então não poderia culpá-los por
não chegar aonde cheguei, o ser humano é muito complexo, a periferia é muito
complexa e seria um erro este julgamento primário em relação aos caminhos que
cada um tomou ou foi escolhido. E outra, os exemplos são mais positivos do que
negativos, sem generalizações de nosso espaço.
A fala meritocrática é um risco no meu caminho, porque muitos me usam como
referencial para afirmar a velha fala do “quem quer consegue” quando na verdade
esse dito representa um vazio sem tamanho na minha concepção, representa a
necessidade de justificar o capitalismo como um sistema útil e seguro, quando
na verdade temos as grandes mazelas e desgraças da humanidade referenciadas
justamente neste sistema. Os negros são excluídos, foram usados e o são, assim
como muitos povos mais vulneráveis, grupos sociais tidos como minorias.
As pessoas associam a França como um país referencial no que
tange a liberdade e direitos humanos, mas ninguém fala das ações dos partidos
de extrema direita e o pensamento xenofóbico daquela população com negros e
Árabes; Associam os Estados Unidos como um país próspero, mas não levam em
consideração os financiamentos em guerras, os massacres contra os povos pobres
e oprimidos de varias nacionalidades em todo o mundo; Associam o Brasil como um
país de multirracial, cordial e feliz, mas não falam da juventude negra que é
morta em um numero inimaginável, onde existem desigualdades ainda gigantescas.
Todas estas fábulas sobre os povos são contos colocadas pelos que estão no
poder, por aqueles que querem deixar evidente que o seu meio de expressão e
suposta democracia serve para todos, quando na verdade ela está colocada por
muito poucos a serviço de pouquíssimas pessoas falando em nome de outras das
quais não possuem nenhum tipo de voz nos espaços de poder.
À tona.
Por isso tudo que reflito que não há fala efetiva de igualdade que não seja feita por aquele que entende a dor, que não há justificativas de fraternidade se quem
está na base não possui voz, pois por mais do que todas as injustiças sociais
sejam resolvidas por quem tem empatia pelas causas elas não são tão efetivas se não discutidas por aqueles que de fato viveram as tragédias do cotidiano, que entende o que
significa ser pobre, ser excluído de fato. O Brasil cresceu muito nos últimos
12 anos e esse é um momento propício de se colocar na mesa o quanto esse
crescimento se refletiu em protagonismo, em escolhas e oportunidades na fala de
quem as recebeu.
Sou negro, periférico que morou em uma viela no Grajaú, filho de empregada doméstica (que mora no mesmo lugar) e
estudante da USP - ainda estou aprendendo o que é estudar e me adaptar às
rotinas impostas por um ensino ainda muito conservador e liberal.
Ainda estou entendendo e me encontrando no movimento negro a qual tenho
aprendido muito e coloca no entendimento do que é importante para a nossa
população. E eu digo “nossa’ porque precisamos sim ter identidade, precisamos
sim formar um gueto empoderado intelectualmente e economicamente.
Por isso não admito e não aceito que nenhum abastado se coloque na minha frente,
achando que pode usar meu jeito e corpo como forma de escarnio e ofensa, que diga o que é ou
não bom para mim – costumo ser muito diplomático e tranqüilo, mais ouço do que
falo, mas não permito que pessoas que vieram de um meio cheio de oportunidades
diga o que significa sobre aquilo que somos, minha experiência empírica vale
mais do que muitos livros (apesar de saber da importância fundamental destes), e
se estou fazendo um curso de Gestão de Políticas Públicas na maior universidade da América Latina é porque acredito que
a administração pública, que a gestão das políticas públicas podem ser transformadoras da realidade quando olhada a partir da ponta - pois sou a ponta.
E por isso tudo que quero ir ainda muito longe. Tenho 30
anos, as vésperas de casar e cheio de sonhos ao lado de minha
preta, com meus projetos pessoais, de transformar a minha mãe na rainha que já o é, de transformar a sociedade a partir daquilo que tenho e que vou adquirir.
Agradeço pelo que sou, pois somos o que somos.